Engraçado acompanhar as horas, estranho e impaciente,
aborrecido e rabugento, bobo e apaixonado, assustado e amedrontado. As horas
elas passam, em cada um no seu próprio tempo, em cada um com sua própria marca.
Acredito ser muita prepotência acreditar em uma padronização de tempo, acreditar
que há mesma hora que você aguarda seu Milk Shake no drive-in do fast food no
quarteirão da frente, enquanto volta do trabalho é igual em tempo e espaço para
quem dá um adeus para alguém no aeroporto em uma sala de embarque vazia sem som
ambiente, e que sente apenas o som e o tato da respiração arrastada como um
peso sobre o peito e a troca de olhares vermelhos e doces, apenas o toque e o
calor de um último abraço em alguém que você realmente não imagina quando será
a próxima vez que irá rever. Muita prepotência acreditar em padronizações, em
crer que a dor alheia, assim como suas bandeiras e lutas levantadas se
equivalem em tempo e espaço, com um modo de vida sem riscos. De acanhamento de
pensamentos e medos profundos, a epifania de hoje se resume na padronização de
repetição de hábitos, da importação de desejos e consumo de ideias alheias,
para no fim com as mãos não calejadas, com a pele não julgada, e com o desrespeito
das escolhas alheias, juntar tudo e com um movimento único e certeiro e subjugar
tudo na lata de lixo da ignorância o mais perto possível, sem seletividade nem
nada.